Há livros que denunciam a tirania. Este a disseca.
Escrito às vésperas das grandes convulsões do fim do século XVIII, As Correntes da Escravidão, de Jean-Paul Marat, não é um tratado abstrato sobre o poder, mas um inventário minucioso de seus abusos. Em capítulos curtos e incisivos, o autor expõe, um a um, os meios pelos quais os governos corrompem os povos, enfraquecem as instituições e convertem a liberdade em servidão. Nada lhe escapa: a sedução pelas dádivas, a degradação dos costumes, a manipulação das leis, a venalidade dos representantes, o uso do exército, a fabricação de inimigos, a distração pelos espetáculos, a linguagem que distorce a realidade.
Dirigida originalmente aos eleitores da Grã-Bretanha, a obra ultrapassa de imediato seu contexto. O que nela se descreve não é um regime, mas um mecanismo - uma engrenagem silenciosa que, pouco a pouco, transforma cidadãos em súditos. Marat escreve como quem adverte e acusa: a tirania não se impõe de um golpe, constrói-se por hábitos, concessões e ilusões.
Entre o panfleto político e a anatomia do despotismo, este livro permanece inquietantemente atual. Não apenas porque revela o que os príncipes fazem, mas porque mostra como os povos, muitas vezes sem o perceber, forjam eles mesmos os seus grilhões.