"Eu não quero que ninguém encoste em mim nunca mais."
Renata disse a frase a rir, para não chorar. Depois acrescentou o resto: "E eu tenho um filho de oito meses e um marido. Então isso é um problema."
Fizemos uma conta num papel de café. Amamentação, colo, cama, banho, adormecer.
Treze horas e meia por dia com um corpo humano encostado ao dela. Todos os dias, há oito meses, incluindo a noite inteira.
Existe uma diferença entre não querer e não ter mais corpo para dar - e os sintomas são idênticos. As duas coisas parecem, de fora e de dentro, uma mulher que já não quer.
Mas há um sinal que separa. Quem perdeu o desejo não sente falta dele. Quem está saturada de contato pensa naquilo quando está sozinha - e recusa no segundo exato em que uma mão a toca.
Para ele, aquela mão na perna às dez e meia da noite é a primeira vez no dia. Para ela é a décima quarta hora.
Toda a gente vai recomendar a mesma coisa: uma noite a dois, um jantar, tempo de casal. E o que muitas mulheres precisam é do oposto exato - duas horas em que ninguém encoste nelas.
Você não deixou de querer. Ficou sem corpo para dar.
Para as mulheres que acham, aos oito meses de um filho, que deixaram de amar o marido. Não deixaram.
Aquele corpo é seu. Está emprestado e não vendido - e a devolução começa muito antes do que parece.
Da autora de Quarto 314, A Hora Antes e O Verão Interior.