Faça um teste agora, antes de ler o resto desta página. Escolha uma revista científica famosa, abra o site dela e tente responder, com o que estiver publicado ali, a cinco perguntas: quem julga os artigos? por qual critério? com que justificativa cada recusa é comunicada? quanto tempo a fila leva de verdade? e o que um autor pode contestar? Você vai encontrar, em minutos, páginas e mais páginas de exigências sobre quem submete - e quase nada sobre quem decide. Esse desequilíbrio, que qualquer pessoa com um navegador confere sozinha, é o objeto deste livro.
Quem Pode Publicar? examina o poder mais decisivo e menos vigiado da vida científica: o juízo editorial - a porta pela qual um manuscrito se torna artigo certificado, citável e contável para carreiras, rankings e políticas públicas. Renato Almeida de Moraes reúne o que os melhores experimentos já mediram sobre esse juízo: artigos aprovados que foram rejeitados ao voltar com assinatura modesta, o mesmo texto avaliado de forma diferente conforme o prestígio do autor, resultados nulos que morrem antes da submissão, trabalhos recusados de plano que depois se tornaram os mais citados. A conclusão é precisa e demonstrada: a seletividade e o prestígio das grandes revistas não são medidas puras nem suficientes de profundidade e originalidade - os vereditos respondem também, onde isso pôde ser identificado, à origem, ao resultado e ao paradigma do manuscrito.
O livro entrega três dossiês inéditos. Um censo documental das políticas das cinquenta revistas de maior impacto mundial em ciência política, coluna por coluna, que qualquer leitor pode refazer. Uma teoria em quatro pilares - critério público, juízo contestável, registro auditável, correção processada - para separar a seleção legítima do gosto entronizado. E um capítulo sobre o Brasil: o país que construiu o maior acervo de acesso aberto gratuito do mundo e, ao mesmo tempo, deixou sem transparência o juízo de suas revistas e a régua (o Qualis) que governa todas as carreiras acadêmicas nacionais - com uma agenda de seis medidas concretas, redigidas em forma de minuta, que não exigem nenhuma lei nova.
Para pesquisadores, editores, pareceristas, bibliotecários, jornalistas de ciência - e para qualquer leitor que já confiou num selo e quis saber quem confere o juiz.